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André Esteves volta a dar as cartas no comando do BTG

André Esteves está definitivamente de volta ao jogo. Não restam dúvidas no mercado de que, mesmo sem um cargo oficial, o banqueiro, que retomou a agenda pública, hoje comanda o BTG Pactual praticamente sem opositores e está por trás dos lances mais ousados do banco nos últimos tempos.

A saída de José Zitelmann, um sócio importante do BTG Pactual, oficializada ontem, é a mais recente de uma lista de nomes graúdos que deixaram a instituição desde que o banqueiro retornou ao banco, em abril de 2016, no papel de consultor sênior.

Na esteira de sua prisão, em dezembro de 2015, sob suspeita de tentar obstruir as investigações da Lava-Jato, Esteves foi afastado do bloco de controle. Em julho de 2018, a pedido do próprio Ministério Público Federal, foi absolvido por falta de provas, o que abriu espaço para que, no último dia útil de dezembro passado, finalmente voltasse à condição de controlador do banco, embora sem um cargo definido.

Zitelmann chefiava a área de renda variável da gestora de recursos do banco e é conhecido por ser o gestor do renomado fundo de ações Absoluto. Ele começou a definir sua saída em agosto do ano passado e vai abrir sua própria casa de fundos de ações em sociedade com Gustavo Hungria, que também deixará o banco.

Antes de Zitelmann, já haviam partido Pérsio Arida e James de Oliveira, no fim de 2016, e Marcelo Kalim, um ano depois, este último um grande acionista, abaixo apenas de Esteves e Roberto Sallouti, o CEO.

Arida, Oliveira e Kalim integravam o chamado "Top Seven Partners", o grupo de sete sócios principais que controla o banco, depois da prisão do banqueiro. Zitelmann chegou a ser anunciado como novo integrante do G7 no lugar de James de Oliveira, mas seu ingresso no bloco de controle não chegou a ocorrer e ele permanecia como um candidato ao posto.

Por conta das sucessivas saídas, o Top Seven Partners está hoje com cinco membros: Esteves, Sallouti, Antonio Porto (Totó), Guilherme Paes e Renato Santos.

"Ficaram os sócios mais alinhados a ele", diz um ex-sócio do banqueiro. "O banco é do Esteves", diz um outro ex-sócio, ao comentar o que teria motivado boa parte das partidas. Cada um dos que deixaram a instituição tinha novas empreitadas no radar, incompatíveis com o elo com o banco.

Antes mesmo da crise vivida pelo BTG, Arida tinha planos de sair do banco e se dedicar à academia (depois desviados quando coordenou o programa de governo de Geraldo Alckmin nas eleições de 2018), Kalim queria montar um banco digital do zero, o C6 Bank, James de Oliveira e Zitelmann não escondiam de ninguém a vontade de ter suas próprias gestoras, com mais autonomia e liberdade.

Ao mesmo tempo, no entanto, um histórico de desentendimentos internos também contribuiu para alguns dos movimentos, como a saída de Arida e também a de Kalim.

"Depois do episódio da prisão do Esteves e de toda a crise decorrente dela, o banco e as pessoas não eram mais os mesmos. Claro que o banco sem ele não é a mesma coisa e sua presença tem um grande valor. Mas a questão é a diferença de percepções de qual é esse valor", comenta um ex-sócio.

Dentro do banco, tantas saídas são minimizadas. "O modelo de parceria é assim mesmo. Mudanças estavam represadas e agora andaram. Nada demais", diz um dos sócios que permanecem.

"A saída do Zitelmann é um processo natural da partnership, de sucessão, de visões e desejos de cada lado, nada muito diferente do que tem acontecido em mais de 30 anos no Pactual e gerando oportunidades para as equipes", diz Allan Hadid, chefe de operações da gestora do banco.

Desde que Esteves voltou, ainda em 2016, tanto pelas características pessoais como pela sua posição acionária dominante, tornou-se inevitável que reassumisse a posição de líder.   Quem está no banco reconhece que a instituição está repleta de novos processos de controle, discussões colegiadas e fiscalizações por comitês que antes não estavam na rotina dos negócios. Contudo, também admitem que é muito difícil uma ideia ou vontade de Esteves não acontecer -- ao menos parcialmente.

Sócios e funcionários que participaram do salvamento do BTG, que se tornou um caso de sucesso e referência pela atuação rápida que preservou a instituição apesar da aguda corrida bancária, criaram novas expectativas no pós-crise. Alguns não se sentiram gratificados pelo esforço empreendido. Outros se ressentem da predominância das vontades de Esteves.

Depois da crise, o banco se tornou mais conservador e seus executivos anunciaram que não mais se aproximariam de governos e tampouco voltariam a comprar participações em empresas, dois ingredientes que, na avaliação interna, contribuíram para a crise em que o banco mergulhou.

Porém, aos poucos, algumas decisões de negócios fazem lembrar o BTG Pactual de perfil mais ousado dos velhos tempos.

A decisão de não vender a participação de 50% na PetroÁfrica, adquirida da Petrobras em junho de 2013, é uma delas. O banco havia se comprometido com investidores a sair do negócio, um passo emblemático, já que o ativo foi alvo de polêmicas no âmbito da Lava-Jato.

O BTG até participou do processo oficial de venda em 2018. Mas, no fim do ano, a estatal brasileira vendeu sua metade e o banco não acompanhou. Já absolvido pela Justiça quando recebeu a proposta firme do comprador, a Petrovida, Esteves quis exercer o direito de preferência e comprar a metade da Petrobras. Foi demovido da ideia por alguns sócios, mas decidiu que não sairia do negócio.

Também no fim do ano passado, outro lance considerado ousado pelos concorrentes foi a participação do banco na proposta de aquisição do controle da editora Abril.

O advogado Fábio Carvalho comprou o controle da editora, em recuperação judicial, com dinheiro do BTG. O banco vai, segundo Carvalho, financiar a injeção de R$ 70 milhões na editora.

Ao mesmo tempo, por meio da Enforce, sua empresa de recuperação de créditos podres, o BTG tenta comprar a dívida bancária da Abril, de R$ 1,1 bilhão, das mãos de Bradesco, Itaú e Santander.

Carvalho é um antigo parceiro do BTG. Já atuaram juntos nas varejistas Casa & Vídeo, Leader e na empresa de logística do setor de óleo e gás Bravante.

É também de Esteves a concepção da forte aposta que o banco está fazendo no varejo, por meio do BTG Pactual Digital, a plataforma de investimentos que busca copiar o sucesso da XP Investimentos.

O banco tem sido tão incisivo em sua movimentação que despertou a ira da XP, uma antiga parceira de negócios. A corretora processa o banco por concorrência desleal, o que o banco nega. Partiu também do banqueiro a decisão de contra-atacar a XP, abrindo nova frente de disputa no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Dentro do banco, algumas áreas, como a de banco de investimento, respondem diretamente a Esteves, sem a participação do CEO Roberto Sallouti.

Se nos negócios e na gestão interna ele retomou o leme, o mesmo pode-se dizer da agenda pública. Não escapou a ninguém sua presença na posse do ministro da Economia, Paulo Guedes, no dia 2 de janeiro.

O banqueiro ficou na cerimônia por quase duas horas, conversando com os outros banqueiros, jornalistas e políticos. Estava à vontade e foi o único a não entrar na fila para cumprimentar Guedes no palco.

Octavio de Lazari Jr., presidente do Bradesco, por exemplo, esperou 20 minutos pela sua vez. Dias depois, embarcou para o Fórum Mundial, em Davos, na Suíça, evento do qual já havia participado em 2018.

"A volta de Esteves está funcionando muito bem, os resultados mostram isso e estamos sendo chancelados pelo mercado", afirma um sócio graduado, exemplificando com a forte captação tanto na área de fundos quanto de gestão de fortunas, que estão em seu pico histórico. Na B3, o valor de mercado do banco subiu quase 50% só neste ano, para R$ 26,2 bilhões.

A compensação dos bônus relativos ao ano passado ocorrerá na próxima sexta-feira. Na semana seguinte, o banco deve anunciar o pagamento de juros sobre capital próprio.

Quem recebeu opções de ações no ano da crise, em reconhecimento pelo empenho na sustentação da instituição, desde dezembro pode exercê-las, pois acabou o período de carência para isto.

Depois que o banqueiro voltou ao bloco de controle, em dezembro, passou a ter 39,7% das ações ordinárias e 29% do capital total da BTG Pactual Holding, veículo que controla o banco. Com isso, ele tem sozinho 35% do poder de voto sobre o banco propriamente.

Paralelamente, a G7 Holding tem 57% do capital votante e 23% do total da BTG Pactual Holding. Pelos dados na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Sallouti é o maior sócio, com 29,3% do capital, seguido por Kalim, que ainda aparece com 24,8%, Renato Santos (19,51%), Antonio Porto (14,2%) e Guilherme Paes (12,2%). Como cada 1% da G7 dá apenas 0,5% de voto sobre o banco, Sallouti, por exemplo, tem apenas 14,5% dos votos no banco.

A participação ainda atribuída a Kalim ficará dentro da sociedade para posterior redistribuição entre os sócios. Sallouti declarou, em 2018, o desejo de recompor o time dos sete. "É uma possibilidade, mas não uma regra", diz um sócio. (do Valor Econômico)

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