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Brasil capta US$ 1,5 bi com taxa inferior mesmo após S&P

O Tesouro Nacional aproveitou as condições globais favoráveis e voltou ao mercado internacional de dívida com a reabertura dos bônus de 30 anos, o Global 2047. Na operação, o governo brasileiro conseguiu condições melhores do que no lançamento inicial desses títulos, em julho de 2016, comprovando que os investidores enxergam hoje menos risco no país do que há um ano e meio.

       O Tesouro levantou US$ 1,5 bilhão com um retorno ao investidor ("yield") de 5,6%, com uma demanda que alcançou os US$ 6 bilhões. A taxa ficou abaixo da indicação do início do dia, na abertura do livro de ofertas, de 5,8%, e menor do que o yield pago em 2016, de 5,875%.

       "Tínhamos muita dúvida por causa do downgrade da S&P, o julgamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e preocupações com as reformas. Mas percebemos que o investidor não reagiu de forma negativa", afirma Alexei Remizov, chefe de mercado de capitais para América Latina do HSBC, que coordenou a operação ao lado de Citi e Morgan Stanley.

       "Para dívida externa, o importante é o tamanho da reserva internacional, a retomada do crescimento da economia e a inflação controlada, permitindo a redução da taxa de juros", completa o banqueiro.

       Mais importante do que a taxa, o Brasil conseguiu reduzir o prêmio de risco sobre os títulos públicos americanos, mostrando a avaliação mais positiva dos investidores na comparação com 2016.

       O spread saiu de 357,2 pontos-base, na última operação de 30 anos, para cerca de 271 pontos. O país ainda não está, no entanto, tão próximo dos níveis de quando tinha grau de investimento -- na emissão de 30 anos feita em 2014, o spread ficou em 187,5 pontos.

       Na avaliação do Tesouro Nacional, o resultado da emissão mostra que o rebaixamento promovido pela agência de classificação de risco S&P Global teve influência "quase nula" para as condições de captação do país.

       "Depois do rebaixamento, o impacto nas taxas foi muito pequeno. Isso mostra que o país continua com perspectiva boa", disse um técnico. A agência cortou o rating soberano na última semana de "BB" para "BB-".

       O governo brasileiro não acessou o mercado internacional por necessidade de financiamento, mas para aumentar a liquidez dos seus títulos de 30 anos. Até então, o montante em circulação era de apenas US$ 1,5 bilhão, volume inferior aos demais pontos da curva da dívida.

       A falta de liquidez contribuiu para a alta demanda pelos novos bônus, que saíram com um prêmio de apenas 6 pontos-base sobre papéis negociados no mercado secundário ("new issue premium", no termo em inglês).

       "O mercado externo está com muita liquidez e é preciso aplicar esse dinheiro. O investidor, ao levar em consideração a estratégia de longo prazo, aceita entrar no papel mesmo com um prêmio tão baixo", diz Remizov, do HSBC. "A percepção é de que os títulos serão pagos e que terão volatilidade relativamente baixa."

       O Tesouro aproveitou um cenário muito positivo de liquidez global. Dados da EPFR mostram que apenas nos sete dias entre 4 e 10 de janeiro, a entrada líquida de recursos para fundos de bônus de países emergentes somou US$ 3,55 bilhões. No ano passado, a captação líquida dos fundos ficou em US$ 68,75 bilhões.

       De acordo com outro interlocutor que preferiu não ser identificado, muitos emissores continuam olhando as condições de mercado para possíveis captações. Ontem foi a vez da Natura anunciar uma série de encontros com investidores. O plano da companhia é pagar as notas promissórias emitidas para financiar a compra da The Body Shop. (do Valor Econômico)
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