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É bem menor o número de empresas listadas na Bolsa hoje

O mercado de ações brasileiro encolheu nos últimos anos e caminha para fechar 2018 com o mesmo número de empresas listadas em bolsa em 2006, um dos mais baixos da história.

É verdade que o mercado de capitais brasileiro ganhou robustez e maturidade com o passar dos anos, e as companhias abertas passaram a ser mais valiosas. Ainda assim, muitas empresas abandonaram a bolsa, o que elevou significativamente a concentração do mercado.

Esse quadro pode ser revertido, dizem especialistas, caso o cenário otimista desenhado com a mudança de governo se concretize. Mas, alertam: os anos de crise mostraram que nem só de expectativa se faz um país.

Levantamento do Valor Econômico com dados da B3 mostra que, hoje, há 341 companhias com ações negociadas em bolsa, mesmo número de 2006 -- antes, portanto, do "boom" de abertura de capital ocorrido entre 2007 e 2008, e um dos menores da série iniciada em 1996.

O valor de mercado hoje das empresas listadas chega a R$ 3,5 trilhões -- a Apple, sozinha, vale quase isso na Nasdaq. Num dos melhores anos do mercado, em 2007, mais de 400 empresas listadas chegaram a valer cerca de R$ 5 trilhões.

O número de companhias com ações em bolsa é 38% menor do que o registrado em 1996, quando havia 550 listadas. Trata-se de um processo de amadurecimento natural do mercado, marcado pela "limpeza" das empresas que não estavam preparadas para ter capital aberto e por movimentos de consolidação, com fusões e aquisições bem recebidas pelos investidores.

Outro lado dessa moeda, as crises da última década (a global, de 2007-2008, e os anos de queda do PIB do período Dilma Rousseff) também contribuíram para o encolhimento do mercado.

Companhias bem-sucedidas e desejadas pelos investidores acabaram saindo da bolsa, já que, sem crescimento, com alta do dólar e queda de preços de ativos, não havia por que manter ações em bolsa.

Um dos casos mais ilustrativos disso foi o da Souza Cruz: em 2015, a controladora British American Tobacco (BAT) fechou o capital da brasileira após 70 anos de listagem. Nos últimos anos, saíram da bolsa companhias como Cremer, Duke Energy, Tereos Internacional, Arteris e Brookfield Incorporações.

A onda de fechamento de capital após os "anos de ouro" de 2007 e 2008 também refletiu a piora de indicadores da atividade brasileira, como a confiança do consumidor e do empresariado, além da redução do consumo e investimentos.

A fragilidade da economia, sobretudo em termos fiscais, ampliou a aversão ao risco, com efeito direto sobre o câmbio e a bolsa. A desvalorização das ações é um estímulo para que o controlador recompre esses papéis, explicam analistas, ou evite recorrer a um mercado recheado de incertezas.

Andre Rosenblit, responsável pela área de renda variável do Santander, afirma que o setor de construção foi um dos que mais cresceu em 2007 e justamente aquele que mais sofreu com a crise, já que o estrangulamento da renda das famílias reduziu a compra de imóveis e elevou o número de distratos.

O mesmo ocorreu com os bancos de médio porte, que inundaram o mercado. Ao optar por ter ações em bolsa, as empresas passam a sofrer mais pressão em termos de resultados, com divulgação trimestral acompanhada de perto pelos acionistas. Com os anos de economia magra pelos quais o Brasil passou após a crise, empresas menores acabaram não resistindo.

Antes de quantidade, os gestores defendem a qualidade das empresas listadas. No entanto, poucas empresas em bolsa são um sintoma de que a economia está desaquecida.

Além disso, existe um elemento técnico: com menos empresas, os indicadores de referência do mercado -- como o Ibovespa -- ficam mais concentrados e enfrentam oscilações mais bruscas, marcadas por instabilidade: Petrobras, Vale e os bancos Bradesco e Itaú Unibanco, por exemplo, são 43% do Ibovespa, que tem 67 ações, um número que pouco mudou com o passar dos anos.

Um mercado enxuto por vezes também provoca um efeito "bola de neve": parte dos recursos destinados ao país acaba entrando em empresas já grandes, de setores específicos, elevando a concentração e "secando" a fonte para novas entrantes.

Fabio Nazari, chefe do mercado de capitais de renda variável do BTG Pactual, afirma que o mercado de capitais, quando em bom funcionamento, é uma fonte de recursos perene e estável, onde o crescimento das empresas se dá continuamente. "É uma distorção não ter um mercado funcionando com liquidez", diz.

E, quanto menos empresas em bolsa, mais o mercado se afasta da realidade da economia brasileira, dando oportunidade menor ao investidor de buscar diversificação entre setores.

Tecnologia e saúde, por exemplo, estão entre os segmentos preferidos pelo estrangeiro. Isso explica em parte a preferência de algumas empresas brasileiras que têm a tecnologia a seu favor por abrir capital no mercado americano. Neste ano, três fizeram esse caminho: as companhias de meios de pagamento PagSeguro e Stone e a empresa de tecnologia de educação Arco Educação.

"Se o Brasil fizer o ajuste fiscal que tanto o mercado espera, a economia tem total condição de entrar em um ciclo de crescimento saudável, que se converta em um bom ciclo também de ofertas de ações. Já vimos melhora, mas por enquanto o que temos são muito mais as expectativas", diz Pedro Sales, gestor de ações da Verde Asset.

Sales pondera que a queda do número de empresas não configura, necessariamente, um quadro negativo. Ainda há, diz, excelentes oportunidades de investimento, em setores como varejo, shopping centers, financeiro e de saúde, que tendem a capturar bem a recuperação da atividade brasileira.

Só que o mercado por aqui permanece muito menos diversificado do que a indústria global, o que força o gestor a gastar mais tempo analisando setores e companhias.

"Com o desenvolvimento da economia no longo prazo e a normalização do nível de juros, é natural que mais gente esteja na bolsa, buscando investimentos. Para a conta fechar, é necessário ter mais empresas vindo a mercado, porque um desequilíbrio de oferta e demanda poderia esticar os preços."

Eduardo de la Peña, diretor de mercado de capitais do Credit Suisse, concorda que a falta de perspectiva de empreendedores em investir e crescer no Brasil levou o mercado a se contrair bastante nos últimos anos. Agora, com a expectativa de equilíbrio fiscal e consequente melhoria da confiança e do ambiente de negócios, as empresas já se prepararam para fazer novas emissões de ações.

"Mas é um processo, vai levar tempo", diz De la Peña. "E você precisa ter um número crescente de companhias abertas porque, obviamente, quanto mais companhias você tem num setor, melhor para o investidor escolher. É menos incerteza na hora da precificação [das ações]."

Rosenblit, do Santander, diz que há fila para novas listagens aguardando apenas os primeiros passos do novo governo rumo ao ajuste fiscal e os primeiros reflexos disso para a atividade. Segundo ele, 30 potenciais ofertas iniciais de ações (IPOs) estão perto de ocorrer, com um giro estimado de R$ 60 bilhões, além de 15 ofertas subsequentes ("follow on"), com potencial de movimentar R$ 70 bilhões.

"Podemos ter, portanto, mais de R$ 120 bilhões de dinheiro novo no mercado de capitais nos próximos 18 meses", diz. "O desafio fiscal é enorme e os investidores, locais e estrangeiros, sabem disso e estão só aguardando a escolha da nova equipe e os esforços nessa agenda." (do Valor Econômico)

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