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Juros sobem e acesso ao crédito piora para empresas

Os juros básicos devem ser mantidos na mínima histórica nesta quarta-feira, mas, na vida real, a turbulência eleitoral tem puxado para cima as taxas que realmente importam para a economia -- as praticadas entre os investidores -- e piorado as condições de financiamento das empresas.

         Diante de um acesso a crédito ainda precário, o aperto torna mais aguda a seletividade dos bancos na hora de emprestar e atrasa a retomada do investimento, dizem especialistas.

         Enquanto o Comitê de Política Monetária (Copom) mantém a taxa Selic em 6,5% ao ano, os contratos de juros futuros -- que refletem o nervosismo do mercado e são usados como referência para empréstimos -- já são negociados por quase o dobro disso.

         Os contratos com vencimento em janeiro de 2021, que estavam em 7,8% em abril, fecharam em 9,8% na segunda-feira. Já o contrato vencendo em 2023 está em 11,5%, contra 9% em abril, enquanto o que vence em 2025 é negociado acima de 12%.

         Os contratos de juros futuros DI são negociados em mercado e refletem a média das taxas praticadas entre agentes financeiros para determinado período. Na prática, refletem a expectativa dos investidores para o comportamento da Selic daqui para diante. Como os bancos emprestam esperando receber lá na frente, são esses contratos que eles observam para balizar quanto cobrarão do tomador.

         Os juros futuros vêm subindo desde maio, impactados pela greve dos caminhoneiros. Depois da paralisação, as taxas recuaram, mas retomaram a trajetória de alta em agosto, com o acirramento da corrida eleitoral.

         Para os investidores, esses dois eventos são indícios de dificuldades econômicas no futuro, que levariam o Copom a subir os juros mais à frente para lidar com desequilíbrios como inflação elevada e fuga de capitais.

         A expectativa do mercado, no entanto, é que a taxa não deve subir no curto prazo, já que a inflação permanece baixa e a retomada da economia está mais lenta que o previsto.

         “Para a economia, os juros que valem são os do DI. O banco não corre o risco de turbulência nos juros longos, com as eleições. Ele se protege “travando” suas taxas com esses contratos futuros e repassando os juros para o tomador do empréstimo. No caso do empresário que vai pegar empréstimo no banco, acrescenta-se ainda o spread, que é a diferença entre o custo de captação e os juros cobrados” -- explica Paulo Petrassi, gestor de renda fixa e câmbio da Leme Investimentos.

         De acordo com Petrassi, esse mercado continuará instável devido às pesquisas de intenção de voto:

         “O motivo do descompasso entre a Selic e os juros de mercado é, sobretudo, a encruzilhada eleitoral. Os agentes do mercado entendem que o país precisa de um candidato de perfil reformista, mas têm dúvidas se esse é o resultado mais provável”, diz. “Paralelamente, há ainda a influência do cenário externo, com os EUA crescendo mais rápido do que se esperava, o que valoriza o dólar e aumenta o risco associado a emergentes, como o Brasil.

Pressão alta. Números do Banco Central até julho, dado mais recente, mostram leve alta nos juros cobrados das pessoas jurídicas. Após cinco meses de queda, a taxa média anual do crédito com recursos livres a empresas aumentou de 20,2% para 20,55% frente a junho; no caso dos juros do crédito ao capital de giro, passou de 18,11% para 18,25%; para a aquisição de bens (exceto veículos), foi de 16,09% para 16,23%.

         “Os juros dos empréstimos têm um componente de expectativa. Quanto maior é a distância entre a Selic e os juros futuros, maior é a pressão para que o Copom eleve a taxa básica, e mais os bancos começam a antecipar esse movimento” -- explica o professor de Finanças do Ibmec-RJ Filipe Pires.

         Miguel Ribeiro de Oliveira, vice-presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac), argumenta que as elevações identificadas pelo BC não indicam mudança na tendência de queda dos juros — a alta não foi observada, por exemplo, nas pesquisas mensais da associação. Ele admitiu, porém, que os bancos continuam seletivos na concessão de crédito, e, caso a instabilidade continue, os juros finais podem subir:

         “Há uma pressão para que os juros às empresas subam. Tudo dependerá de o comportamento das taxas futuras ser persistente. Caso continuem a subir, fatalmente haverá alta das taxas na ponta.

         Já no segundo trimestre, o índice de acesso ao crédito da Confederação Nacional da Indústria (CNI) caiu 0,7 ponto, para 36,9 pontos, sua primeira queda após sete aumentos consecutivos. Abaixo de 50, o indicador aponta maior dificuldade de acesso ao crédito.

         “A Selic baixa jamais chegou às empresas. Agora, aumentam as chances de alta nos juros, tornando ainda mais improvável que o setor de fato aproveite taxas baixas”, raciocina Marcelo Azevedo, economista da CNI. “O que é prejudicial é a incerteza. Fica muito difícil tocar o dia a dia da empresa e praticamente impossível para investir”. (de O Globo)

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