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Para analistas, Levy no BNDES mostra ênfase no rigor fiscal

O ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy foi confirmado como presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no novo governo.

“Com extensa experiência em gestão pública, PhD em economia pela Universidade de Chicago, Joaquim Levy deixa a diretoria financeira do Banco Mundial para integrar a equipe econômica do governo do presidente eleito Jair Bolsonaro”, disse, em nota, a equipe de Guedes.

A indicação foi bem recebida no mercado financeiro, que vê no nome de Levy um sinal de compromisso com o rigor fiscal. Segundo economistas, o fato de ele ter tentado fazer um ajuste fiscal em 2015, quando foi ministro da Fazenda de Dilma Rousseff, é um sinal de que o BNDES vai trabalhar em linha com outros ministérios para avançar com o equilíbrio das contas públicas.

Jair Bolsonaro disse confiar na escolha feita por Paulo Guedes para o banco, apesar de ter ouvido reações contrárias pelo fato de Levy ter sido secretário do Tesouro no governo Lula, secretário da Fazenda do Rio na gestão de Sérgio Cabral e ministro de Dilma.

“Tem uma reação, tendo em vista ele (Levy) ter servido a Dilma e Cabral, mas não tem nenhum processo contra ele. Esse é o argumento do Paulo Guedes, e eu tenho de acreditar. Na primeira semana não vai ter mais sigilo no BNDES. Eu não sei se o Joaquim Levy quer abrir o sigilo do BNDES. Meu contato é com o Paulo Guedes, ele é que vai abrir. Se não abrir, alguma coisa vai acontecer”, afirmou Bolsonaro.

Uma das incumbências dadas a Levy por Guedes é a missão de trazer para o Brasil mais dólares das instituições internacionais, aumentar a captação externa e focar a atuação do banco na estruturação de privatizações, infraestrutura e inovação.

Segundo fontes, Paulo Guedes quer mais recursos para o Brasil do Banco Mundial e Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Atualmente, o ex-ministro da Fazenda de Dilma Rousseff tem um cargo no staff do Banco Mundial e pode ampliar o diálogo com as instituições estrangeiras.

Levy também deverá ter como estratégia melhorar as condições regulatórias para facilitar os investimentos em infraestrutura dos fundos de pensão. Em artigo já publicado pelo Banco Mundial, ele destacou que os fundos de pensão, com ativos de US$ 26 trilhões no mundo, representam uma fonte potencial de financiamento de infraestrutura.

A estratégia de Plano Econômico de Paulo Guedes, com a maior captação externa, é liberar dinheiro do BNDES e aumentar a devolução antecipada dos empréstimos feitos pelo Tesouro Nacional durante o governo dos ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff. Esse movimento reduz a dívida bruta do governo, uma das principais metas de política econômica de Guedes.

Com amplo conhecimento nos assuntos fiscais dos Estados, Levy também deverá ter papel importante nas negociações para a construção de um plano de salvamento das finanças dos governos estaduais, já considerado inevitável.

Segundo fontes, Levy também deverá trabalhar em conjunto com o governo federal em propostas que auxiliem em mudanças legais nas regras de contratação pública, processos administrativos, agências reguladoras nas áreas reguladoras -- área a que tem se dedicado nos Estados Unidos e que deixou de fazer quando foi ministro da Fazenda de Dilma. O foco é melhorar todo esse arcabouço para impulsionar os investimentos na área e o crescimento econômico.

Perfil moderado. A avaliação na equipe é que Levy não é ultra ortodoxo e vai lutar pelo fortalecimento do banco, mas com foco diferente. Apesar de ter integrado o governo do PT, a escolha de Levy é vista como importante reforço para o presidente eleito Jair Bolsonaro, que tem de conseguir quadros bons para a sua equipe para dar maior previsibilidade ao seu governo. Levy é apontado como um gestor que tem muita experiência no governo, setor privado e instituições internacionais.

O mercado reage positivamente ao nome de Joaquim Levy no BNDES. Segundo o economista-chefe da corretora Tullett Prebom, Fernando Montero, o Tesouro Nacional registra menor gasto real apenas em três anos. Duas dessas três quedas, com efeito, foram com Levy. Primeiro como secretário do Tesouro, em 2003, e depois, como ministro da Fazenda em 2015. A terceira foi no ano passado, com o funcionamento do teto constitucional.

Montero destaca ainda que Levy costurou a devolução desses recursos ao Tesouro, servindo para pagar dívidas que as instituições financeiras tinham com o governo e ajudando a "suavizar" a dívida bruta.

Para analistas e gestores do mercado financeiro, o nome de Levy para o BNDES é positivo porque ele já conhece bem as engrenagens de Brasília e sabe o que precisa ser feito. Além disso, estudou em Chicago, a mesma escola - de viés liberal - onde Paulo Guedes fez seu doutorado.

“É uma escolha interessante e aponta na direção de nomes pró-mercado na equipe de Bolsonaro, o que vai reassegurar aos investidores o comprometimento do novo governo em direção a uma política econômica ortodoxa”, disse o economista-chefe para mercados emergentes em Londres, da Capital Economics, William Jackson. “Levy parece ter uma boa reputação nos mercados, parte por sua experiência no setor privado, mas também por seu papel no governo.”

“Sem dúvida, dá uma visão melhor sobre o próximo governo. Comprova que a equipe de Bolsonaro pode ser composta por integrantes da era PT, desde que sejam comprometidos com o controle fiscal”, afirmou o estrategista em renda fixa da Coinvalores, Paulo Nepomuceno.

O estrategista da Laic-HFM Gestão de Recursos, Vitor Carvalho, menciona alguns fatores positivos sobre a nomeação do ex-ministro. Um deles é o fato de Levy ter experiência na vida pública. Outro ponto positivo é o fato de ser uma pessoa convicta da necessidade de ajuste fiscal e, com experiência em Brasília, pode ficar em “stand by” caso o presidente eleito precise de alguém para outro cargo.

“Bolsonaro quer moralizar o BNDES e fazer uma devassa. Isso é bom para as contas públicas, pois o Tesouro não pode ficar aportando dinheiro para o BNDES queimar ajudando quem não precisa”, diz.

BC e Petrobrás. Com a definição do comando no BNDES, o mercado financeiro agora aguarda a definição de pelo menos mais dois nomes importantes dentro da estrutura econômica: os presidentes do Banco Central e da Petrobrás.

Para o BC, o favorito continua sendo o atual presidente, Ilan Goldfajn. Na semana passada, fontes ligadas à equipe de transição haviam dito que sua permanência dependia apenas de “motivação pessoal”. Nos bastidores, a leitura era de que a eventual autonomia do BC, que pode ser votada no Congresso, poderia abrir espaço para Ilan ficar no cargo até março de 2020. Sem ele, há pelo menos outros cinco nomes em análise.

Para a Petrobrás, o nome do atual presidente, Ivan Monteiro, vem ganhando força nos últimos dias. Mas Jair Bolsonaro afirmou ontem que nada está definido em relação à estatal. “Só especulações. Tem nomes aparecendo, mas o Paulo Guedes não bateu o martelo ainda. Amanhã (hoje), Paulo Guedes pode definir mais algum nome.” (de O Estado de S. Paulo)

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