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Pequim mobiliza empresas na guerra comercial contra EUA

As empresas chinesas parecem estar ajudando o governo na guerra comercial contra os Estados Unidos, com a escalada de tarifas entre os países deixando Pequim com opções cada vez menores de retaliação.

Jack Ma Yun, presidente da companhia de comércio eletrônico Alibaba Group Holding, deu um sinal quando recuou de sua promessa de criar 1 milhão de empregos nos EUA em uma entrevista publicada nesta semana pela agência chinesa de notícias Xinhua. Seus comentários vieram depois que o presidente Donald Trump promulgou uma nova rodada de tarifas na segunda-feira.

Ma inicialmente expôs suas ambições a Trump em sua torre em Nova York em janeiro de 2017, pouco antes de o magnata imobiliário se tornar presidente. Mas ele disse na entrevista de quarta-feira que sua promessa foi baseada na cooperação amistosa entre os EUA e a China.

"A base anterior para o comércio foi prejudicada", disse Ma, argumentando que não há como cumprir seu plano nas atuais circunstâncias.

O fato de os comentários de Ma terem aparecido na Xinhua, uma fonte estatal de notícias, alimentou especulações de que Pequim estava por trás da reviravolta do executivo, que ocorre apenas alguns meses antes das eleições intermediárias dos EUA em novembro.

"Normalmente, as reportagens da Xinhua refletem as intenções do governo chinês", disse um funcionário da mídia chinesa. Durante uma conferência na sede de Alibaba, Hangzhou,

            Ma reiterou seu pessimismo sobre a guerra comercial sino-americana. "Isso não terminará em poucos meses, ou mesmo em alguns anos", disse ele. "As pessoas devem se preparar mentalmente para uma longa batalha que durará 20 anos."

Assistiram ao evento o governador de Zhejiang e outras autoridades, indicando a proximidade de Ma com os formuladores de políticas públicas.

Ma também discutiu a importância de criar um negócio que não dependa da tecnologia americana -- uma resposta provável à proibição americana de vendas para a ZTE nesta primavera.

A fabricante chinesa de equipamentos de telecomunicações foi forçada a suspender a produção de smartphones e outros dispositivos até que os EUA suspendessem as sanções.

"Os EUA controlam o mercado de semicondutores, mas o que devemos fazer se eles pararem de vender para nós?", disse Ma. No mesmo fórum, o Alibaba anunciou que estabelecerá uma nova subsidiária chamada Pingtouge, para que o grupo possa começar a desenvolver chips avançados internamente.

A Tsinghua Unigroup, empresa estatal de semicondutores, planeja gastar mais de US$ 100 bilhões na próxima década, desenvolvendo seus próprios chips. O presidente Zhao Weiguo decidiu tomar as coisas em suas próprias mãos após uma série de propostas fracassadas para conquistar players internacionais, como a fabricante de chips americana Micron Technology.

O afastamento dos EUA não está restrito ao setor de tecnologia da informação. A estatal PetroChina assinou um acordo com a Qatargas, uma companhia estatal do país do Golfo Pérsico, para adquirir 3,4 milhões de toneladas de gás natural liquefeito por ano durante 22 anos.

O acordo, anunciado em 10 de setembro, é significativo porque o GNL "foi um fator determinante da breve era da amizade sino-americana", disse um executivo de uma empresa internacional de energia.

Durante a viagem de Trump à China em novembro de 2017, os dois lados assinaram acordos de US$ 250 bilhões em negócios, incluindo a compra de produtos americanos e o desenvolvimento conjunto de recursos. Os negócios relacionados ao GNL representaram mais de 20% da soma total.

Mas a China adicionou agora o GNL à lista de novas tarifas de retaliação contra os EUA, que entrará em vigor na segunda-feira. A China absorveu menos de 2 milhões de toneladas de gás natural liquefeito americano no ano passado, e o acordo com o Qatar deve preencher qualquer lacuna na oferta causada pelo imposto extra de 10%.

A China tem menos espaço do que os EUA para empreender tarifas retaliatórias. O país importa cerca de US$ 150 bilhões em mercadorias americanas a cada ano, enquanto os americanos importam aproximadamente US$ 500 bilhões da China. Pequim já impôs tarifas a cerca de 70% das importações americanas, e pode estar contando com as empresas para continuarem a luta em seu proveito. (do Valor Econômico)

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